Um dia, não sei quando, há muito tempo atrás, eu deixei de
acreditar que a felicidade existe por todo o mundo. Deixei de crer que os
contos de fadas são reais, que o homem não magoa o outro, que o dinheiro
funciona, que meu voto tem um significado, que as contas que pago são minhas,
que vivo nos tempos privilegiados da humanidade, onde não se passa fome, que a
vida é justa, que fazendo o bem o bem voltará, que sendo amigo não criaremos
inimigos, que emprestando dinheiro nos irão pagar, que se gritarmos nos vão
ouvir, que manifestando-nos vamos mudar algo. Que trabalhando vou construir a
minha vida, sendo recompensado pelo que me esforcei.
Um dia, não sei quando, abri os olhos e vi maldade no ser, que
a minha fome é tanta como a do próximo, que posso ser tão mau como todos. Que
não nos vemos como irmãos, mas como um peão dispensável uns aos outros. Que a
alegria e paz das religiões não funciona, porque quem vive na religião é o Homem,
quem a faz e pratica é o Homem, e como é óbvio, e pelo Homem ela não funciona.
Mas quem diz religiões, diz mais outras ‘cias, ciências , democracias, e
filosofias, tudo ideias de boas vontades, corrompidas pela natureza do ser .Que
o comum para todos é lindo, é! Mas o Homem não quer ser comum, todo o Homem
quer ser ditador, rei e rainha, dono do mundo, ser feliz sem esforço e
dificuldades . Mesmo que isso destrua outro ser como nós numa qualquer parte do
mundo, fechamos os olhos e continuamos, acreditando e enganando-nos a nós
mesmos e aos outros, que o mundo é difícil, mas podia ser pior.
Mas podia ser melhor?
Um dia não sei quando, vi que o mundo era feio, e vi também que
eu não era o único que o via, vi que muitos o viam, e por ele nauseados
continuavam, existindo, inertes e estáticos, no emaranhado da burocracia que o
sistema da vida comporta, passageiros.
Não sou passageiro?
Sou ser, homem e bicho, entre todos, gorado do sonho que
existirá um dia a felicidade comum, tantos Homens mais do que eu o escreveram,
mais perguntas deixaram que respostas deram, de sábios a vadios, foi sempre o
nada como conclusão.
Um dia eu vi,
que não quero mais perguntas, querer saber o que nunca
serei,
frustrado nestas linhas fico, querendo uma moral certa onde
o certo não existe, que certo nunca serei, mas errado é o mais certo, frustrado
mais um, ri-se a vida outra vez, com a morte à espreita, observando e
cochichando, fazendo troça de outro mortal, que quis fazer perguntas e não as
achou.
Tal como elas,
que deixaram de perguntar.
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